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21.8.17

Nem Descartes safou os franceses: se pensassem, Macron não existia!




«Após mais de 100 dias no Eliseu, exercendo o cargo de Presidente da República, os franceses que votaram nele como uma barreira contra o avanço das forças reaccionárias da extrema-direita, personificadas em Marine Le, estão desencantadas com ele.(…)

“É um ditador”, “é um muito dirigista e distante”, “não respeitas as pessoas e é vaidoso”.» 
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Janela para o medo



A fome almoça medo. O medo do silêncio atordoa as ruas. O medo ameaça.
Se amas, terás sida.
Se fumas, terás cancro.
Se respiras, terás contágio.
Se bebes, terás acidentes.
Se comes, terás colesterol.
Se falas, terás desemprego.
Se caminhas, terás violência.
Se pensas, terás angústia.
Se duvidas, terás loucura.
Se sentes, terás solidão.

Eduardo Galeano 
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Francisco Louçã sobre o Capitalismo


Concorde-se ou não, vale a pena ouvir e, muito provavelmente, aprender umas coisas.



«Neste episódio abordámos um tema muito vasto e complexo: O Capitalismo. Fomos ao ISEG, falar com o Francisco Louçã, Doutorado em Economia, fundador do Bloco de Esquerda e Conselheiro de Estado para ele nos oferecer uma perspectiva crítica deste sistema económico e social, segundo o qual as sociedades Ocidentais, e muitas outras, se organizam nos dias de hoje.

Durante pouco mais de meia hora, falámos sobre a história do Capitalismo, quais as suas origens, as várias transformações que sofreu e as críticas que lhe foram sendo feitas. Falámos sobre o Capitalismo actual, sobre neo-liberalismo e a sua influência no processo democrático, e em instituições como a União Europeia. Olhámos também para o futuro. Procurámos debruçar-nos sobre para onde seguem as sociedades capitalistas. Quais as várias transformações que podem vir a sofrer numa era onde a inovação tecnológica acontece a uma velocidade estonteante. Falámos de possibilidades como a “Uberlândia”, regimes autocráticos e de soluções para o futuro como o Rendimento Básico Incondicional.»

21.08.1968 – Era madrugada em Praga










A não perder, este belíssimo vídeo com mais fotografias.

(Texto e fotos de Josef Koudelka, Invasion of Prague, Thames & Hudson, 2008.)
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20.8.17

Venham eles...


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O meu padrinho mulato nasceu num 20 de Agosto


(Karel Pott ao meio, comigo ao colo)

Há uma meia dúzia de anos, uma troca de comentários num blogue, que já não existe, levou-me a revelações absolutamente inesperadas. Nasci e passei a infância em Lourenço Marques e os amigos, inseparáveis e quase únicos dos meus pais, eram Karel Pott e a mulher. Fui criada praticamente como irmã dos filhos deles.

De pai holandês e mãe negra, terá sido o primeiro mulato moçambicano a obter um diploma de curso superior, em Coimbra. Era advogado, com escritório num belíssimo prédio na Baixa de Maputo - o Prédio Pott -, hoje (ou pelo menos há uns anos) em ruínas e ocupado por marginais, objecto de justas exigências para ser recuperado. A tal ponto desfigurado que nem o reconheci quando voltei a Maputo e o procurei em vão.

Com orgulho póstumo, descobri então que Karel Pott teve um conjunto de interesses e actividades que eu ignorava totalmente. Por exemplo que foi um dos fundadores do jornal O Brado Africano e que, como presidente do Grémio Africano, protestou nos anos 30 porque «fechavam-se as escolas e dificultava-se o ingresso de alunos negros e mulatos nas existentes, jogando-os, se homens, na marginalidade, e, se mulheres, no "monturo ignóbil da prostituição". Falando com a experiência de quem havia representado – como atleta de corrida – Portugal nas Olimpíadas de Paris, em 1924 [à esquerda, na foto aqui ao lado], lamentava que, em Lourenço Marques, "terra mais de pretos portugueses que de brancos portugueses", fechava-se a porta aos primeiros…». Percebi também por que motivo a sua actividade como advogado nunca lhe foi facilitada...

Para a criança de menos de dez anos que era quando sai de Loureço Marques, ele foi apenas o padrinho extremamente carinhoso que vivia numa modesta moradia no Palmar, separada do areal por uma mísera estrada e umas urzes, onde eu passava quase sempre os fins-de-semana. Por vezes vinha visitá-lo a mãe que se recusava a dormir noutro sítio que não fosse uma simples esteira estendida no chão. Recordo-me também de os meus pais me explicarem que eles não iam connosco em férias à África do Sul porque o meu padrinho não seria bem tratado por ser mulato – é a minha primeira recordação de um pré-apartheid, que nunca esqueci porque me causou na altura a maior das perplexidades.

Poucas horas depois de escrever um texto semelhantes a este, aqui no blogue, recebi um mail de um sobrinho, apareceu-me um neto na Facebook, recebi muitas informações através de bloggers moçambicanos, descobri uma referência de José Craveirinha («o Dr. Karel Pott, que foi uma referência muito forte na minha vida»). Mais tarde, e também no Facebook, retomei contacto, que ainda mantenho, com um dos seus filhos – o «Berty», com quem cresci durante os primeiros anos da minha vida.

Hoje, «regressei» à minha cidade das acácias vermelhas. 
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«Remove» Trump: era bom, era!



Remove Him Now (Robert Reich)

«I know, removing Trump would mean having Mike Pence as president. But a principled right-winger is better for America and the world than an unhinged sociopath.
Republican as well as Democratic members of the House and Senate must commit themselves to removing this president.
Those of you represented by Democrats in the House or Senate must get their commitment to remove him, as soon as possible.
Those of you represented by Republicans in the House or Senate must let them know that you will campaign vigorously against them in 2018 unless they commit to removing Trump as well.
It is time to end this disgrace.» 
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É uma TV portuguesa, com certeza


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Topos de gama e gamas de topo



«Gama, terceira letra do alfabeto grego, mas também expressando uma série de coisas da mesma categoria, ordenadas segundo o seu valor. Topo, entre outras significações, quer dizer o grau mais elevado que se pode alcançar. Topo de gama, uma expressão recentemente lexicalizada de carácter qualificativo, que atribui a um dado objecto um lugar preferencial numa determinada escala.

O tempo de agora convive bem com esta desengonçada expressão. A obsessão topo-gamista invade tudo e enevoa cabeças. (…)

Evidentemente que o topo de gama pode ser mais de topo do que de gama, ainda que de gama, enquanto tempo de um verbo, se possa sempre dizer algo mais. Sobretudo, considerando a convergência, que por vezes existe, entre o topo de gama e a gama fiscalmente declarada do salário mínimo nacional, ou seja, o rendimento de menor grana, mas de maior gama.

O verbo topar é inseparável do topo de gama. Porque este só faz sentido se for topado. Quer dizer, falado, comentado, invejado, atraído, comparado. A relação com outro verbo – gamar – não é absoluta, mas a sua correlação é crescente. Quer dizer, gamar pode ser uma condição necessária para se chegar ao topo de gama, dependendo, obviamente, da gama e do gamão. Topam? (…)

Falando em impostos, é verdade que os há também topo de gama. Mas esses ninguém os quer exibir, embora, por vezes, topem (isto é, tropecem) nas declarações tributárias. (…) Pena é que o IVA da electricidade que é de alargada gama, mas não é de topo, tenha a mesma taxa de IVA dos diamantes, carros de alto luxo ou vestuário sacado aos animais selvagens que são de restrita gama, mas de elevado topo.

Há ainda os topos de gama literários. Há quem lhes chame best-sellers, ainda que os dois conjuntos não sejam necessariamente iguais. Mas basta ir a uma livraria para apanharmos nas ventas logo à entrada os topos de gama “light” (lidos (?) agora, nas praias e arredores), enquanto nos vemos em palpos de aranha para encontrar um livro de Torga, Jorge de Sena ou Herberto Helder.»

António Bagão Félix

19.8.17

Ironia belga


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Dica (612)



The World According to Bannon (Alexander Livingston) 

«Steve Bannon’s vision of civilizational crisis and violent renewal has deep roots in the American political tradition.» 
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Gracía Lorca morreu num 18 ou 19 de Agosto



Federico García Lorca conta-se entre as primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Foi fuzilado, com apenas 38 anos, em Agosto de 1936, entre os dias 17 e 19, pelo seu alinhamento político com os Republicanos e por ser declaradamente homossexual.

Todos os anos nesta data, em Viznar, perto de Granada, ciganos cantam, dançam e dizem poesia em honra de Lorca e de cerca de 3.000 fuzilados pelos franquistas, cujas ossadas se encontram por perto. De madrugada, à luz de velas e das estrelas, sem nada programado, sem nenhuma convocação formal.





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Se The Guardian não é ainda um jornal de fake news




«The publisher confirmed on Friday that it had complied with a Chinese request to block more than 300 articles from the China Quarterly, a leading China studies journal, in order “to ensure that other academic and educational materials we publish remain available to researchers and educators” in China.
A list of the blocked articles, published by CUP, shows they focus overwhelmingly on topics China’s one-party state regards as taboo, including the 1989 Tiananmen massacre, Mao Zedong’s catastrophic Cultural Revolution, Hong Kong’s fight for democracy and ethnic tensions in Xinjiang and Tibet.»
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Bem podíamos aprender!


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A justiça em Portugal é “mais dura” para os negros



Joana Gorjão Henriques divulga, no Público de hoje, um longo e muito importante texto sobre discrepâncias entre brancos e negros no exercício da justiça em Portugal. Alguns excertos ajudam a perceber a gravidade do problema.

«Há uma marca no rosto de Diogo do tempo em que ele esteve na prisão. Livre há apenas uns meses, prefere não explicá-la. Com voz pausada, Diogo lembra a vida que o conduziu para trás das grades durante três anos e seis meses, justamente numa altura em que até tinha começado a trabalhar e em que não cometia crimes. Cumpriu a pena praticamente até ao fim, mas saiu do Estabelecimento Prisional de Leiria sem perspectivas. (…)

Sempre viveu com autorização de residência permanente. Quando saiu da cadeia em Setembro, ficou em situação ilegal. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) cancelou a sua residência. “Nasci cá. Já cumpri a minha pena, já fiz porcaria, mas já paguei. Estou a trabalhar. Exigem mais porquê? Se não tiver trabalho o que faço?” Tem a sensação de que, ao encurrala-lo assim, o sistema pressiona-o para que vá de novo para a cadeia.

Diogo foi um dos jovens dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que engrossou as estatísticas prisionais. Um em cada 73 cidadãos dos PALOP com mais de 16 anos em Portugal está preso. É uma proporção dez vezes maior do que a que existe para os cidadãos portugueses — onde um em cada 736 cidadãos na mesma faixa etária está detido. O número sobe para 1 em 48 quando se trata de cabo-verdianos, a comunidade africana mais expressiva em Portugal: ou seja, 15 vezes mais.

Mais um dado: se tivermos apenas em conta os homens, que constituem, na verdade, o grosso da população prisional, concluímos que um em cada 37 cidadãos dos PALOP está preso versus um em cada 367 homens portugueses (e uma em cada 1071 mulheres dos PALOP versus uma em cada 6732 portuguesas). (…)

Estas estatísticas podem ter várias interpretações, e também ser analisadas do ponto de vista racial, já que a maioria da população destes países é negra — por não existirem dados étnico-raciais em Portugal, há sociólogos que usam a variável imigração dos PALOP como método de aproximação à questão racial. Os resultados seriam diferentes — e, acreditam os especialistas contactados pelo PÚBLICO, a desproporção aumentaria — se houvesse dados sobre portugueses negros, que aqui aparecem diluídos no grupo de portugueses. (…)

O procurador Alípio Ribeiro, que já esteve na direcção nacional da Polícia Judiciária, não tem dúvidas: as taxas de encarceramento apuradas pelo PÚBLICO mostram uma “diferença abismal” entre presos dos PALOP e portugueses. E confirmam uma intuição que tinha, a de que “há uma justiça para portugueses e uma justiça para estrangeiros, uma justiça para brancos e uma justiça para negros”.

O procurador, também inspector, defende que “não se pode tirar destes números a conclusão de que os PALOP são mais criminosos”. Pelo contrário: “O que posso dizer é que o sistema permite isto. Parece-me que há uma pro-actividade em relação a estes indivíduos.”

A discriminação racial na justiça traduz-se em outros aspectos, afirma. A sua percepção é a de que “é preciso menos provas para incriminar um negro”. Porque “há uma desconfiança inicial em relação ao negro que não há em relação ao branco”. Em geral, afirma, a justiça é “mais dura em relação aos negros”. (…)

As discrepâncias também se encontram nas condenações pelos mesmos tipos de crimes, com clara desvantagem para africanos. As proporções são estas: há nove vezes mais condenados dos PALOP por roubo e violência do que portugueses; oito vezes mais por resistência e coacção sobre funcionário; seis vezes mais por desobediência. Estes dois últimos crimes implicam interacção com a polícia. “Aqui o anacronismo ainda é mais visível”, continua Alípio Ribeiro. (…)

Manuel, nome fictício, não tem dúvidas. Depois de cumprir a sua pena, sabe que “a população” da sua cor “está em massa nas prisões”.

Com quase 40 anos, e a viver em Portugal há 17, na linha de Sintra, é um angolano pai de uma filha de sete anos, portuguesa. Foi Manuel quem se entregou à polícia por crimes de burla e falsificação. Mas acredita que o facto de ser negro influenciou o seu percurso: não contou com atenuante na pena aplicada, de seis anos e sete meses, cumpriu-a praticamente até ao fim e sem conseguir gozar de qualquer precária, mesmo tendo sido um “recluso exemplar”.

“Encontramos o racismo mais puro dentro do sistema prisional”, afirma. “Pedi uma saída. Sendo recluso primário, com um quarto da pena cumprida, por ser desta cor não me deram.”

Quando entram na prisão, os reclusos estrangeiros perdem a autorização de residência e não a conseguem renovar. “O juiz dizia que não me dava a precária porque os meus documentos estão caducados. Se quem me privou da liberdade foi a justiça, a justiça é que tem que ver se eu estou preparado para a precária, não é o SEF. Onde é que estão os direitos humanos?”

Apesar da recomendação da ONU para que o faça, e de insistência de associações de afrodescendentes, em Portugal não há recolha oficial de dados étnico-raciais, por isso alguns cientistas sociais usam dados das populações PALOP. É uma limitação, até pela associação que assim se cria entre negros e imigrantes, mas também uma forma de aproximação. O retrato da desigualdade racial só seria feito se a estes dados conseguíssemos acrescentar os portugueses negros.»
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18.8.17

Dica (611)



Independentes de modo vário (José Manuel Pureza) 

«Um independente não é por definição mais fiel à satisfação dos interesses da população do que um militante partidário. E não, uma candidatura independente não é por definição mais democraticamente pura do que uma lista partidária. (…)
A linha de diferenciação na democracia local não é entre partidos e independentes, é entre quem alarga a democracia e quem perpetua a deformação da prática da democracia tomando-a como jogo de elites e de iluminados. Ora, tanto nos partidos como fora deles há gente que está de um lado e gente que está do outro desta diferenciação.» 
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Ramblas



«La única calle de la tierra que yo desearía que no acabara nunca, rica en sonidos, abundante en brisas, hermosa de encuentros, antigua de sangre, es la Rambla de Barcelona.»

Federico García Lorca
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18.08.1975 – Vasco Gonçalves em Almada



Eu já publique mais de uma versão deste texto, mas regresso ao mesmo, já que foi um marco que os mais novos nunca entenderão, mas que aqueles que viram e/ou ouviram nunca vão esquecer.

Há 42 anos, Vasco Gonçalves fez em Almada, com 15.000 pessoas presentes, um discurso que durou uma hora e meia e que foi transmitido em directo pela RTP (texto, na íntegra, aqui) e que seria o princípio do fim de muitas coisas e o ponto de partida inevitável para muitas outras. Um discurso dramático que acabou com Vasco Gonçalves lavado em lágrimas, como descreve o Diário de Lisboa (pag.5) do dia seguinte.

Uma curtíssima amostra:



Dramática foi também a carta que Otelo lhe escreveu 24 horas depois: «Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa História. Agora companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste País ao assim proceder. (...) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário.»

O V Governo Provisório, que tomara posse dez dias antes, tinha as semanas contadas e não houve muralha de aço que lhe valesse. A 19 de Setembro, Pinheiro de Azevedo assumiria as rédeas do VI. O 25 de Novembro estava à vista. 
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Make Mein Kampf great again



«A cidade norte-americana de Charlottesville foi palco de graves confrontos durante uma manifestação de nazis americanos e uma contramanifestação de pessoas. O resultado final do confronto foi um morto por atropelamento, por um adepto do Alt-right, e vários feridos.

As manifestações foram convocadas depois de uma estátua do general sulista da Guerra da Secessão dos EUA e defensor da escravatura, Robert E. Lee, ter sido removida da cidade. Deviam ter-lhes dito: calma, vamos levar a do general Lee, mas vamos pôr uma do Adolfo. Os EUA são tão grandes que a diferença horária faz com que exista gente a viver no século XIX.

Em relação à retirada da estátua, porque o general era a favor da escravatura, podemos discutir o politicamente correcto, e a "humanidade" dos nossos dias, "versus" a questão histórica e temporal. É um bocado como o Nobel da Medicina para o Egas Moniz. Rebentava-lhes com o cérebro, fazia as pessoas patetinhas, mas achava que pelo menos deixavam de estar tão excitadas. Há coisas, por mais incríveis que sejam, que podem parecer fazer algum sentido na época em que aconteceram. O problema é quando querem fazer dessas estapafúrdias ideias de ontem novas ideias de hoje.

Nazismo não é o mesmo que revivalismo da música dos anos 80. Dançar a fingir que se está a fazer um solo numa guitarra eléctrica imaginária não é o equivalente a fazer a saudação nazi.

Não há espaço para os saudosistas do holocausto. O mundo viu morrer milhões de pessoas e escreveu o pior capítulo da História do homem, mas há quem ache que, apesar disso, deve haver espaço para eles. É como se os ratos que trouxeram a peste negra, no século XV, fizessem uma parada a atravessar a cidade a andar numa roda.

Queria ver o que aconteceria se houvesse uma manifestação dos apoiantes do ISIS com bandeiras, catanas, explosivos à cintura e muitos gritos de morte aos infiéis.

Nos EUA - o cemitério dos militares americanos -, apesar de todas as guerras em que estiveram envolvidos, é maioritariamente preenchido por soldados que morreram a combater o nazismo. Faz falta um "walking dead" para correr outra vez com esta gente saudosista do Adolfo.

Imaginemos os EUA durante a II Guerra com um Presidente como Trump, o cabelo ajuda. De que lado estaria o Presidente dos Estados Unidos? Pois. A resposta é assustadora, nem que seja pelo intervalo de tempo que precisamos para decidir.»

João Quadros
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Nero e os tambores da guerra



«Donald Trump começa a parecer-se demasiado com o Nero dos tempos modernos. Tornou a Casa Branca a sede do seu império empresarial, mas o caos da sua administração ameaça fazer implodir as bases do sistema democrático americano.

E esta confusão constante tanto pode ser uma estratégia pensada como um desvario completo. Ninguém sabe. Fustigado pelo "establishment", Trump refugia-se nos que o elegeram no interior dos EUA. Contra as ameaças internas, fala de "fogo e fúria" atiçados na direcção da Coreia do Norte. São tambores da guerra a ecoar, para distrair os americanos dos problemas que não consegue resolver no seu território. Seneca, o conselheiro de Nero depois de este ter conseguido matar a sua mãe, Agripina, dizia que nenhum Estado pode ser tão mau que possa evitar que algum homem o sirva de alguma maneira. Seneca sonhava influenciar o poder, algo que os filósofos gostam de vislumbrar. Era um mestre da retórica e um dramaturgo. Foi ele que defendeu, numa empolgante carta ao Senado, que Agripina se tinha suicidado após ter tentado em vão fazer um golpe de Estado contra Nero. Este agradeceu-lhe na altura, mas não evitou que mais tarde, se tivesse suicidado após Nero o considerar o arquitecto de um golpe contra o seu poder. Que era então magnífico, entre festas e construções que empolgavam o povo. Tudo acabou com o incêndio que devastou Roma.

Trump, como Nero que insultava as elites romanas, utilizando a calúnia. Táctica antiga, a que hoje se chama "verdade alternativa". A pós-verdade do tempo de Trump é herdeira da de Nero: as fábulas confundem-se com a realidade. Mas o problema é que esta história começa a ter todas as condições para correr mal, como escrevia há poucos dias Gideon Rachman no Financial Times, que descrevia a hipótese de Trump embarcar para um conflito internacional para tornar as suas dificuldades internas. E citava um assessor de Trump, Sebastian Gorka, que disse à Fox News: "Durante a crise de mísseis em Cuba ficamos atrás de John F. Kennedy. Há analogias com essa crise. Precisamos de estar juntos." E, com uma guerra, os EUA poderão ficar atrás de Trump. A Coreia do Norte é problemática, e os generais que estão à volta de Trump sabem isso: um ataque contra Kim Jong-un poderia levar ao desaparecimento de Seul, porque seria impossível parar toda a artilharia norte-coreana. A Venezuela seria um alvo mais fácil. Ou o Irão, nunca se sabe.

Trump representa o triunfo do ressentimento sobre a esperança. Muitos americanos buscam algo que possam culpar pela sua crise: os mexicanos, a China, a União Europeia. Tudo serve para disfarçar os problemas estruturais com que os EUA se debatem hoje. Trump simboliza essas vozes. O seu discurso não vende em Nova Iorque, mas é comprado na Louisiana ou no Dakota. E é tudo isto que nos faz lembrar a República de Weimar nos anos 30. Os alemães não percebiam porque estavam pobres e eram humilhados. Antes da I Guerra Mundial eram o centro da inovação. Hitler aconchegou os seus medos. E o "establishment" convidou-o para o poder em 1933. Só saiu de lá à força.»