18.12.17

China e barbaridade




«Execuções aconteceram imediatamente a seguir ao julgamento. Vários dias antes, os habitantes locais foram convocados a comparecer à sentença.»

Pode ser que os responsáveis por estas barbaridades sejam um dia executados por robôs.
.

Solidariedade com a Catalunha




«Londres, París, Milán o Berlín se han levantado teñidos de amarillo en una acción conjunta de los CDR internacionales. El ‘Millenium Bridge’ de Londres, junto a la Tate Modern y a la catedral de St Paul’s, la Plaza 25 de Abril de Milán, la Passerelle Léopold-Sedar-Senghor de París o los alrededores de la Alexanderplatz de Berlín se han levantado este domingo teñidos de amarillo en protesta a los encarcelamientos de los líderes políticos y civiles catalanes y la aplicación del artículo 155.»
.

O primeiro golpe no império – Índia, 1961



Foi na manhã de 17 de Dezembro de 1961 que tiveram início as operações militares que levaram à ocupação da cidade de Pangim, capital de Goa, na noite do dia seguinte. O «império português» levou então uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana. Lembro-me bem da consternação, quase generalizada, que os acontecimentos provocaram no país, mesmo em certos meios da oposição. Houve algum tempo depois uma peregrinação a pé a Fátima (julgo que para que os céus nos devolvessem a «católica» Goa).

Os factos são conhecidos, mas vale a pena recordar o célebre discurso que Salazar fez na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (*). É um longo elogio (de 24 páginas A5) ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial.

Ficam algumas passagens a começar pela primeira frase do texto: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». Mais: «Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Amplamente conhecida é a frase que encerra o discurso: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.»

(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo.
.

17.12.17

17.12.1974 – Abolição da censura



Foi nesta data que foi extinta a Comissão de Censura aos livros e publicações em Portugal. Não me lembrava de que tinha durado tantos meses depois do 25 de Abril.
.

Creches para a Autoeuropa?




«“O governo assumirá as suas responsabilidades e há algumas dimensões que poderão ser concretizadas com um envolvimento mais forte, sobretudo no que toca à criação e reforço de equipamentos sociais de apoio à família e que responda a um novo quadro horário de funcionamento da empresa, com mais creches e creches com horário diferenciado, por exemplo. O governo irá empenhar-se, desde já, na promoção desse tipo de equipamentos”, anunciou Vieira da Silva.»

Há aqui qualquer coisa que não bate certo: existe um problema laboral numa empresa como a Autoeuropa e é o governo que se propõe intervir proporcionando creches com horários especiais? E fará o mesmo para quem trabalha por turnos sete dias por semana, como, só para citar um exemplo, os enfermeiros e outros profissionais da área da saúde? Ou para empregados de hipermercados?
.

Dica (683)



Entrevista a Naomi Klein: Ao ataque contra Trump. 

«Numa entrevista a propósito do seu mais recente livro, No Is Not Enough (Não Basta Dizer Não, em tradução livre), Naomi Klein explica como a marca “Donald Trump” é o último sonho capitalista e um perfeito exemplo de exploração da crise em benefício da elite.»
.

Catalunha, a quatro dias de eleições




Já não é permitido divulgar, em Espanha, sondagens relativas às eleições de dia 21, mas continuam a sê-lo feito em Andorra, como é habitual.
.

Não há raças, só há cidadãos?



«Reconhecendo a existência de cidadãos portugueses negativamente discriminados em função da visibilidade somática (e.g. a cor da pele, a textura dos cabelos), os peritos do Comité para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD) da ONU recomenda(ra)m ao Estado português a necessidade de reconhecer a existência de uma minoria racial e de estabelecer políticas específicas contra aquela ilegítima discriminação.

Porém, argumenta-se que a existência de uma minoria racial acompanhada de políticas públicas específicas para minimizar a discriminação configura uma solução racista para o problema da discriminação racial. Com efeito, se a ciência já provou a inexistência de raças, invocar uma minoria racial faz subsistir na esfera pública e na legislação política uma categoria intrinsecamente discriminatória, a de raça, cujo impacto político devastador é testemunhado por inúmeros factos históricos (e.g. escravatura, trabalho forçado, apartheid e Holocausto).

Neste contexto, se não há raças e se há cidadãos (ou organizações) que defendem a existência de uma minoria racial que carece de protecção pública contra o tratamento discriminatório de que são alvo, então aquela defesa prova mais o racismo de quem a propõe do que a hetero-discriminação. Doravante, os verdadeiros fautores da discriminação racial são todos aqueles que denunciam um tratamento baseado numa realidade que não existe e atribuem a falsos obstáculos exteriores (a hetero-discriminação) a incapacidade interior de prossecução dos seus fins. Nesta perspectiva, as barreiras raciais e racistas no acesso à educação, aos serviços públicos e ao emprego são exclusivamente interiores e, por serem autoignoradas, são erroneamente atribuídas a uma entidade imaginária. Assim, a violência policial pune comportamentos intrinsecamente desviantes e a recusa em participar na sociedade é resultado de uma deliberada e desafiante vontade de auto-exclusão. Em última instância, a reivindicação de uma minoria racial resulta do processo de vitimização do grupo minoritário, incapaz de reconhecer que a discriminação de que reputa ser alvo é uma consequência (natural e social) da sua menoridade.

Conquanto fosse desejável que a denúncia da vitimização fosse acompanhada pela da torcionarização, i.e. do esclarecimento da diferença social e política na perspectiva das qualidades intrínsecas (naturais ou sociais) do grupo de cidadãos discriminados, a ideia de que a constituição de uma minoria racial é uma ideia racista parece-nos precipitada.


16.12.17

Marcelo pastor



A imagem no Expresso de hoje e completada por Luís Vargas no Twitter.
.

Áustria: extrema-direita no poder




«A Áustria irá tornar-se, desta forma, no único Estado-membro da União Europeia que inclui uma formação de extrema-direita no Executivo. Porém, esta não é a primeira vez que o ÖVP chega ao Governo. Entre 2000 e 2005, uma coligação semelhante levou à aplicação de sanções por parte de Bruxelas.»

Esperam-se agora sanções por parte de Bruxelas (esperemos sentados, claro).
.

A sopa envenenada



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Este artigo não é sobre as “raríssimas”; ou seja, sobre o caso da associação com esse nome. Este artigo é sobre as vulgaríssimas; ou seja, sobre aquilo que este caso revela sobre a nossa sociedade, sobre os nossos comportamentos, sobre o modo como os media e os seus consumidores estão impregnados da sopa envenenada que é hoje a chamada “opinião pública”. O caso em si é fácil de descrever: numa instituição de solidariedade social, com obra reconhecida como meritória (podia não ser), a sua responsável (e certamente vários dos seus colaboradores, incluindo os “whistleblowers”, como é costume) abusou da sua situação para obter vantagens materiais, viver à custa dos dinheiros “solidários”, ter luxos, e empregar a família e amigos. À sua volta, uma rede de cumplicidades, envolvendo o poder político, e membros do Governo ou ajudaram a causa, sem cuidados, ou participaram no festim. Nalguns casos pode ter havido crimes, noutros comportamentos eticamente reprováveis. A instituição vivia encostada ao Estado (como quase tudo em Portugal) e recebia apoios da sociedade civil, parece que com alguma eficácia.

Uma reportagem da TVI denunciou o caso, os abusos e as cumplicidades. Fê-lo com equilíbrio e com matéria probatória sólida, incluindo depoimentos, emails e alguns filmes, uns feitos às escondidas, outros às claras. Do ponto de vista da deontologia jornalística, a única coisa que podia suscitar dúvidas eram os filmes que foram fornecidos juntamente com as outras denúncias por gente de “dentro”. Não é incomum no jornalismo de investigação este tipo de técnicas e há doutrina estabelecida sobre as regras a seguir. Neste caso, no documentário original, tudo o que lá está é mais do que justificado pelo interesse público da denúncia de um caso de claro abuso desta natureza. Na sequência deste documentário original seguiram-se as linhas de investigação e escrutínio, jornalístico e público, obrigatórias: a senhora foi afastada das suas funções, o membro do Governo envolvido demitiu-se (e se não se tivesse demitido devia ter sido demitido de imediato) e prossegue o trabalho de esclarecer se existem outras responsabilidades no Governo, quer por acção quer por omissão. A realidade tem mostrado que os membros do Governo e os outros políticos envolvidos não estão a sair-se muito bem das explicações que têm de dar. Esta parte está ainda em curso e deve ser inteiramente esclarecida, assim como os inquéritos judiciais e investigações por quem de direito.

Nada disto é incomum, é até muito vulgar, e consideravelmente consentido quando dentro de portas, e quando ou se esconde bem a mão, ou quando se distribui alguma coisa do bodo colectivo e “comem todos”. Até um dia. Nesse dia vai lá tudo deitar pedras, como se não se soubesse de nada, ou, um pouco por todo o lado, como se comportamentos deste género não fossem o retrato de uma sociedade onde há uma escassa ética colectiva, em parte porque somos ainda uma sociedade muito pobre, ou em que parte das pessoas saiu ainda há pouco tempo da pobreza, onde nunca na burocracia imperaram critérios de mérito, mas a cunha ou o patrocinato, onde esquemas de todo o tipo são tão comuns, no Estado, na política, nas empresas, nos bombeiros, nas casas paroquiais, nas escolas, nos quartéis, nos centros de saúde, um pouco por todo o lado. Talvez com menos gravidade, nem sendo muitas vezes crimes mas apenas abusos, mas com tanta trivialidade que não os vemos como culposos.

Significa isso que os portugueses não são honrados? Não, significa que são pobres, ou ainda que têm uma memória viva da pobreza, não sentem a coisa pública como sendo de todos, e sabem que, para empregar um filho, obter um papel na câmara, evitar pagar o IVA, passar à frente de uma fila, há um sistema de favores implantado que vive da complacência de quem se aproveita e da inveja de quem ficou de fora. E isto é de uma ponta à outra da sociedade. Desde os offshores “legais” ao planeamento fiscal, às compras para as cantinas, das empresas que fazem brindes para as campanhas eleitorais, até aos amigos e as empresas que arranjam sempre ser contratados sem concurso público, até ao autarca que “rouba mas faz” e a quem os mesmos que exorcizam a corrupção em cada palavra que dizem, afinal, votam.

Isto é corrupção, mas não só. É o retrato de uma sociedade disfuncional, muito desigual, onde quem tem acesso ao poder de gerir, ou de comprar, ou de vender, o faz quase sempre numa rede de amizades e cumplicidades, com proveito mútuo, e tão habitual que não merece condenação social. Até um dia, em que a complacência se substitui pela inveja. Nesse dia entra em cena aquilo a que chamei “a sopa envenenada”. Antes era a mesa de café onde quem estava à mesa era de uma honestidade férrea (até ao momento em que saia da mesa) e à volta, a começar pela mesa vizinha, era tudo ladrões, corruptos e desonestos. Agora a mesa de café é planetária e é nas sarjetas das redes sociais, onde o mesmo insuportável espírito domina os comentários e as entradas no Facebook. E é para esse público que hoje está o caso das “raríssimas”, agora investigado já não pelas regras jornalísticas, mas pelas da exploração demagógica e populista, pela exibição do pior que há nos seres humanos, da inveja social, da calúnia, do ressentimento, do bater nos que estão em baixo, e mesmo outro tipo de comportamentos pouco recomendáveis.

E o assunto está hoje assim nos media formais e informais: desequilibrado, com um overkill desproporcionado à gravidade dos factos e com violações sérias da privacidade das pessoas. Se é relevante que a pessoa A tivesse uma relação íntima com a pessoa B, isso pode ser dito com a obrigação da proporcionalidade e do respeito pela privacidade. Para se dar uma informação relevante não é preciso ter um exibicionismo voyeurista, que é uma coisa de outra natureza. Já para não falar de alguma elegância — tão bizarra palavra nos nossos dias —, mas também a noção de que humilhar e amesquinhar as pessoas coloca quem o faz no mesmo plano da senhora culpada destes abusos.

Acresce que o facto de a principal culpada dos desmandos ser uma mulher não é irrelevante. Pior ainda é uma mulher “insuportável”, arrogante, atractiva e muito senhora de si para parecer um perigo para os homens e para as mulheres que no fundo temem as mulheres deste tipo, ou pura e simplesmente temem as mulheres como se fossem amazonas. O sexismo facilitou e muito o incêndio dos comentários e há uma espécie de exorcismo contra a sedução implícita. Se não querem ouvir as sereias, coloquem cera nos ouvidos e não fiquem babados a ver a televisão e a vociferar de inveja, de todas as invejas.

É por isto que quase tudo para além do caso das “raríssimas” é muito mais triste do que as gambas e o BMW, quer pelo que está antes e a gente faz de conta que não vê, quer pelo que está depois em que a gente faz de conta que vê demais.»
.

15.12.17

O PSD no seu labirinto



Público, 15.12.2017

Aprecie-se a transcendência das questões com que andam entretidos os candidatos a presidente do PSD.
.

O padre Felicidade morreu há 19 anos



Com um dia de atraso, faço questão de recordar que José da Felicidade Alves morreu em 14 de Dezembro de 1998, com 73 anos. 

Com uma vida atribuladíssima, foi certamente uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Não se estranhe que continue a chamar-lhe «padre Felicidade»: faço-o unicamente porque foi como ele sempre desejou ser tratado – até ao fim. 

Prior da paróquia de Santa Maria de Belém, em Lisboa, desde 1956, foi sobretudo a partir de 1967 que as suas intervenções começaram a causar incómodo tanto ao poder político como ao eclesiástico (embora já em 1965 tivesse sido enviado por Cerejeira para Paris). 

No início de 68, ausentou­‑se de novo para aquela cidade (continuando, no entanto, como prior titular de Belém) para prosseguir estudos de Teologia Ecuménica. De visita a Lisboa por ocasião da Páscoa, resolveu fazer uma comunicação ao Conselho Paroquial, na presença de oitenta pessoas, comunicação essa que desencadeou um longo e atribulado processo que iria culminar no seu afastamento da paróquia, na suspensão das funções sacerdotais e, já em 1970, na excomunhão (ou seja exclusão da própria comunidade eclesial). A comunicação de 19 de Abril tinha duas partes: Perspectivas de transformação nas estruturas da Igreja e Sentido da responsabilidade pessoal na vida pública do meu país, sendo abordados, nesta última, problemas que iam da necessidade da abolição da censura, ao direito à informação e à discussão da guerra colonial. 

O cardeal Cerejeira avançou com uma tentativa de o retirar da paróquia logo em Maio, mas seguiu-se todo um processo, recheado de peripécias, que terminou com a referida suspensão das funções sacerdotais.

Houve então inúmeras reacções de paroquianos e de centenas de padres e de leigos. A páginas tantas, não me recordo exactamente quando, um grande grupo de pessoas, solidário com o padre Felicidade, dirigiu­‑se de Belém para o Patriarcado, onde se acantonou no átrio e numa pequena área do passeio, protegida por um gradeamento e por isso a salvo da intervenção policial. Foi pedida uma audiência a Cerejeira que não apareceu mas enviou um secretário para dispersar os presentes. Ficará na memória de todos «Esta casa é nossa!», um grito repetidamente lançado nessa tarde, no seu jeito bem peculiar, por Francisco de Sousa Tavares. O cardeal não nos recebeu, mas estava reunido, a essa mesma hora, com alguns paroquianos de Belém muito activos contra o padre Felicidade. Quando esta reunião terminou e os participantes desceram a escada do paço patriarcal, deu­­­‑se uma cena patética: uma dessas pessoas, salazarista ferrenho, viu no meio da multidão que se encontrava no átrio a mulher acompanhada pela filha. Ele gritou mandando­‑as para casa, elas choraram abraçadas, silenciosamente. Inesquecível. 

Uma das principais iniciativas do padre Felicidade depois do afastamento da paróquia de Belém, em Novembro de 1968, foi a publicação de onze números dos Cadernos GEDOC, em 1969 e 1970, dos quais foi o grande impulsionador (juntamente com Nuno Teotónio Pereira e Abílio Tavares Cardoso). Publicação que começou por ser legal, embora à revelia e prontamente condenada pelo cardeal Cerejeira, passou à clandestinidade quando os seus principais responsáveis, incluindo o padre Felicidade, foram presos pela PIDE.

Depois do 25 de Abril, Felicidade Alves aderiu ao PCP, onde se manteve até morrer, embora sem actividade de militância nos últimos anos. Até neste aspecto a sua vida foi atípica, já que foram poucos os chamados «católicos progressistas» que escolheram tal percurso.

Mas verdadeiramente decisiva foi a sua grande influência nos meios católicos, a frontalidade das atitudes e do discurso. Como muito bem definiu Abílio Tavares Cardoso, um dos seus principais compagons de route, os textos do padre Felicidade «não traduzem só um novo paradigma de estar e de lutar na Igreja, mas vão ficar na história como páginas antológicas para uma literatura de indignação».

Tinha-se casado civilmente em 1970, mas só em 10 de Junho de 1998, seis meses antes de morrer, trinta anos após o início de um longo processo dramático com a Igreja e quando, finalmente, foram resolvidos os problemas a nível do Vaticano, é que o cardeal José Policarpo celebrou o seu casamento canónico – tal como o padre Felicidade sempre desejara. 



P.S. – Este texto resulta, em parte, de transcrição e adaptação de algumas páginas de um livro que publiquei em 2007: Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses contra a ditadura, Âmbar, 248 pág.
.

Time after time



«A personalidade do ano da Time em 2017 são as pessoas que denunciaram casos de assédio sexual. De uma forma ou de outra, Donald Trump tinha de ser capa. Segundo ouvi dizer, o Presidente dos Estados Unidos, assim que soube desta notícia, foi abrir a Time nas páginas centrais, na vertical, na esperança que uma delas aparecesse seminua. Se eu pudesse escolher a palavra do ano, escolhia "assédio", seguido de "alegado".

No último ano, "descobrimos" que Hollywood é um enorme metro cheio na estação do Chiado. Tudo a apalpar o que pode. É triste descobrir que a meca dos sonhos é povoada pela mesma malta que buzina em Lisboa quando passa por uma jeitosa. São pessoas com síndrome de Tourette nas mãos, que me desculpem os que o têm. Ser capa da Time não é para todos mas, infelizmente, neste caso, é para quase todas.

Se eu fosse o Trump, podia dizer - "eh, eh, o assédio é capa da Time, devem ter dormido com poucos para conseguir isto!" Ou melhor, "se não fosse eu, o assédio nunca tinha sido capa da Time. Ainda dizem que tenho mão pequeninas." Para nós, todas estas revelações são chocantes. Apesar de termos um Presidente dos afectos - e beijoqueiro, é verdade -, não temos um Presidente dos apalpões.

Todos tivemos desgostos quando soubemos que o nosso actor preferido, ou realizador favorito, era, na verdade, um tipo todo nu com uma gabardina. Não sou dos que acha que a obra seja apagada. Não podemos confundir o artista com a obra. O importante é que se um dia dermos de caras com esse artista que nos desiludiu, em vez de lhe pedirmos um autógrafo, é optar por um pontapé nos testículos. Seguido de um - "Gosto muito do seu trabalho".

A esta hora, a caixa de comentários está cheia de garbosos machos a dizer que o Quadros é feminista. Não sou, tenho defeito de fabrico. Dou por mim a olhar para as fotos das assediadas e a dizer - fazia, não fazia, fazia, fazia, arrrrrrrgggghhh! Quem é que pôs aqui uma fotografia da Teodora Cardoso?! Vocês têm cá uma piada!

O facto de o assédio ser capa da Time é um momento importante. Sinceramente, eu estava à espera que fosse o Centeno. É uma grande vitória e um tema intemporal, pode a revista ficar esquecida num consultório de dentista que continua a ser sempre actual, infelizmente. Relembro que, há vinte e tal anos, a capa da Time foi a fome em África.»

.

14.12.17

Dica (682)




«Developers are working on tools that can help spot suspect stories and call them out, but it may be the beginning of an automated arms race.»
.

Aves raríssimas



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:



Na íntegra AQUI.
,

A César o que é de César

Nuno Brederode Santos: seriam 73




O Nuno nasceu em 14.12.1944 e deixou-nos este ano. Os amigos não esquecem, ainda dói. Para o manter connosco, divulgo mais uma das suas magníficas crónicas.

Um dia para gente afável

«Escrevo num hoje que será o ontem dos incautos que me lerem. Um hoje negregado pelo que já trouxe e inquietante por aquilo que trará. Não sei se ao mundo, ao país, à cidade ou à minha rua. Basta-me saber que a mim.

. Subi à vertical com a luz do sol. Também ela vinha em amarelo, mas esmaecido pelas pequenas hesitações do dealbar. Entreguei-me às abluções da doutrina e foi tudo quanto fiz para aguçar as capacidades mentais que já vão rombas. Nem o café redentor tomara ainda, quando saí para pôr marcos mentais no latifúndio lisboeta que guardo nas traseiras (os tais imponentes sessenta e sete metros quadrados que mais tonificam estes meus pulmões cansados do que qualquer catálogo turístico sobre a Amazónia). Mas poucos segundos de exposição ao libérrimo esplendor da natureza bastaram para reparar que vinha luz a mais do topo sudeste e logo compreender que me tinham arrancado e surripiado as glicínias (uns seres encantadores de pacífica modéstia que ali faziam uma pequena zona de sombra, no azul-lilás que o olhar aguado de Herr Fritzl acaba de tornar mal afamado).

. Há anos – já muitos, concedo – o sangue trazido às guelras ter-me-ia lançado nas aventuras de uma guerra pessoal. Teria ido várias vezes à esquadra (uma para participar; outra para depor, à hora em que o agente adequado para o efeito lá estivesse; e uma terceira para assinar o depoimento, caso não quisesse esperar pela dolorosa dactilografia monodigital do esforçado amanuense, que mais não era do que um polícia de giro sob castigo disciplinar). Anos depois, quando naquele recanto sucessivas e diferentes flores me tivessem sido roubadas e eu já nem guardasse memória das glicínias, seria chamado a depor na fase de instrução, perante gente que, vergada ao senso comum e ao excesso de trabalho, me faria perceber - e bem – como o meu zelo cidadão estava a prejudicar a justiça dos outros. Muito mais tarde, receberia enfim a explicação de que o processo contra incertos fora arquivado a guardar melhor prova.

. Hoje, já sou mais poltrão. Ou fiz recuar a fronteira do brio e da coragem. Foram-se as glicínias? Seja. Amanhã as hortênsias? Vá que não vá. Sou um país invadido que já só defende a capital: o limoeiro e as buganvílias. Aí serei uma fera, porque há sementes deles que já entraram em mim e cá ficaram. Tirarei licença de porte de arma, comprarei uma caçadeira, mandar-lhe-ei serrar os canos na rotunda do Relógio e sobretudo soltarei no jardim a fúria meridional do mini-mastim andaluz que enfrenta pardais em campo aberto. Em suma, exercerei, como cidadão, a legítima defesa da propriedade. Porque, ao contrário do que nos querem convencer, o crime contra a propriedade – não a contabilística, que preocupa os neoliberais, mas a de raiz, a da terra úbere, que comove os conservadores – é mil vezes pior e mais cobarde do que o crime contra a vida ou a integridade física. Neste, a vítima defende-se. Ou pelo menos tenta. E, se não consegue, ainda pode escolher como morrer: se na pedinchice do martírio, se na bravata do herói. No crime contra o património, não. Na propriedade, sobretudo fundiária, jaz um estar que é, todo ele, um enlevo de presença, silêncio e paz. A propriedade não se sabe defender. Não aguenta um golpe de lei, nem um golpe à margem dela. Os que a não possuem não imaginam o calvário a que estão poupados.

Assim explicado o desencanto com que parti para a extraordinária aventura que o resto do dia devia propiciar, devo então explicar o que ele ainda trará de inquietante. É o apagão cívico. Uma hora mundial e ao que parece muito fraterna, em que se empenham sete municípios portugueses (fora os que agora se propõem voluntariamente seguir-lhes o exemplo) e o entusiasmo de alguns ambientalistas – tudo sob o entusiástico patrocínio de quatro multinacionais e a comovida vigilância da EDP e da REN. Por isso, das 20h30m às 21h30m, apagaremos as luzes: nas casas, nos escritórios, nos monumentos. Para irmanar ricos e pobres, aqueles juntam-se a estes durante sessenta minutos, no jovial sacrifício de uma auto-imposta Idade Média (o que é mais exequível e barato - mas sobretudo prudente - do que conceder uma hora de iluminação dos que a não têm).

Diluídos no sofá, de telemóvel na mão esquerda, copo na mesa de apoio e comando na mão direita, até se pode ver (à luz de vela que o petróleo não haja poluído) um Portugal-Suécia - que Ban Kimoon e Madaíl terão certamente combinado estar subtraído às obrigações um tanto juvenis do prometido mundo verde.»

Diário de Notícias, 29.03.2009
.

13.12.17

Dica (681)



Reflections on Anti-Communism (Marcel Liebman e Ralph Miliband)

«Anti-communism, it seems, is losing some of its currency.
None of the familiar red-baiting tricks doomed Bernie Sanders’s run for the presidency. And among young people, whose memory of the Soviet Union is hazy at best, anti-communism appears a fusty old doctrine, a historical artifact with no real relevance.»
.

Muito melhor do que as fake news de Trump




«A história conta-se rapidamente. Oobah Butler é o tal jornalista freelance, que vive num (agora famoso) barracão em Dulwich. Tinha já, como ele próprio admitiu depois, escrito várias críticas falsas sobre restaurantes, mas desta vez pensou que seria interessante criar um – fictício, claro. Chamou-se The Shed at Dulwich por causa do barracão onde vive.

A primeira coisa que fez foi inscrevê-lo na plataforma de avaliações TripAdvisor que, curiosamente, aceitou integrar um local sem confirmar a sua existência. The Shed entrou para o 18.149 lugar da lista, conta o The Washington Post. Mas não ficaria aí muito tempo.

Oobah arranjou um número de telefone para atender eventuais clientes e criou uma página de Internet para explicar o conceito do restaurante. E fê-lo jogando com vários dos tiques instalados no mundo da restauração: começou por dizer que The Shed só aceitava marcações por reserva (deu o nome da rua, mas nunca o número da porta) e isso foi o primeiro passo para o tornar apetecível para todos os que querem ser os primeiros a poder dizer que já lá estiveram.

Depois, criou uma carta explicando que o espaço não tinha um “menu tradicional” e que servia “estados de espírito” – os clientes só tinham que dizer como se sentiam e o chef interpretava num prato. Um exemplo: Lust (Luxúria) eram rins de coelho em tosta temperados com açafrão, com bisque de ostra, acompanhado por um soufflé de romã. E acompanhou as descrições com imagens de pratos feitos por ele, um dos quais incluía uma pastilha de detergente e espuma de barbear.

A partir do momento em que foi aceite no TripAdvisor, foi fácil pôr a família e todos os amigos a escrever falsas críticas, elogiando o restaurante, contando como tinha sido difícil conseguir um lugar, mas como tinha valido a pena. O buzz começou a nascer. E o telefone de Oobah começou a tocar.

Quando tornou a sua história pública, num artigo na revista Vice, Oobah mostrou também muitos dos vídeos que fez dele próprio a atender telefonemas de pessoas que queriam marcar mesa no The Shed. Ele respondia sistematicamente que estava “completamente esgotado”, mas nalguns casos levava a brincadeira um pouco mais longe e perguntava, por exemplo, quantos seguidores é que a pessoa tinha no Instagram e se se considerava “um influenciador”.

Enquanto o telefone tocava sem parar, o The Shed continuava a subir, a bom ritmo, na lista dos lugares mais desejados de Londres. A certa altura, os telefonemas não eram apenas para reservar mesa, mas de pessoas a candidatar-se a um emprego. E um deles foi mesmo da junta de freguesia local a propor-lhe mudar o restaurante para um novo empreendimento.

O TripAdvisor contactou Oobah um dia para lhe comunicar que mais de 89 mil pessoas tinham espreitado informação sobre o The Shed em apenas 24 horas. Por isso, apesar de tudo, não foi uma surpresa total que o restaurante tivesse chegado ao topo. No início de Novembro, The Shed at Dulwich instalou-se no primeiro lugar da lista de restaurantes recomendados em Londres. E nunca ninguém lá tinha comido.

Para além de ser hilariante, a história vem revelar como sistemas como o TripAdvisor podem facilmente ser manipulados. O sistema de controlo do site, explica o The Washington Post, é feito em grande parte por algoritmos e fiscalização automatizada. O TripAdvisor recusou-se, no entanto, a comentar o caso específico do The Shed.»
.